quinta-feira, 27 de setembro de 2012

O PACHACUTI DOS INCAS


O PACHACUTI DOS INCAS

a)     Os cananeus
Na verdade, os apóstolos do Novo Testamento, como Paulo e João, não foram os primeiros a fazer uso da estratégia acima a fim de identificar Deus claramente para os pagãos. Um personagem não menos impor­tante como Abraão empregou o mesmo método dois mil anos antes! Eis a história...
Javé — "Deus" em nossa língua — fez a um homem, inicialmente chamado Abrão, algumas promessas estupendas, há cerca de 4.000 anos. Javé ordenou a Abrão que deixasse sua terra, seus parentes e a casa de seu pai, partindo para um país estranho, distante e provavel­mente selvagem (Gn 12.1). Javé prometeu o seguinte se Abrão (cujo nome foi mais tarde mudado para Abraãoj obedecesse às suas ordens: "De ti farei uma grande nação, e te abençoarei, e te engrandecerei o nome. tu uma bênção: abençoarei os que te abençoarem, e amaldi­çoarei os que te amaldiçoarem" (Gn 12.2-3).
Até este ponto, o arranjo especial de Javé com Abrão não parece muito diferente dos inúmeros pactos similares com deuses tribais através de toda a história, feitos com seu círculo exclusivo de devotos em várias partes do planeta Terra. Seria Javé, como alguns críticos insinuaram, apenas um outro insignificante deus tribal aguçando os sentimentos egoísticos de um seguidor com promessas grandiosas destinadas a fazê-lo voltar repetidamente com nova adoração e homenagem?
Essa insinuação seria difícil de contestar se não fosse pela última linha deste acordo Javé-Abrão, onde o primeiro diz: "Em ti serão bendi­tas todas as famílias da terra" (Gn 12.3, grifo acrescentado).
Essa declaração faz brilhar uma característica especial das promes­sas de Javé! Ele não abençoava Abrão com a finalidade de torná-lo egocêntrico, arrogante, indiferente. Javé o abençoou para fazer dele uma bênção, e não apenas para seus próprios parentes! Esta bênção tem como alvo nada menos do que todas as famílias da terra! Nada poderia ser menos egoísta ou menos restrito!
Os teólogos chamam de aliança abrâmica a este conjunto de pro­messas, mas trata-se de muito mais do que uma simples aliança entre Deus e um indivíduo específico. Ela marcou o início de um novo e surpreendente desenvolvimento que os teólogos chamam de revelação especial! Em outras palavras, na ocasião em que Javé tivesse cumprido todas as suas promessas a Abrão, a humanidade teria condições de compreender a sabedoria, o amor e o poder de Javé de maneira ante­riormente inconcebível, não apenas aos homens; mas, segundo tudo indica, também aos anjos (v. IPe 1.12).
Antes de enviar Abrão ao seu novo destino como "uma bênção a todas as famílias da terra", Javé primeiro o guiou até uma região desconhecida, habitada por diversas tribos que abrangiam diferentes clãs e famílias. Eram as tribos dos cananeus, queneus, quenezeus, cadmoneus, heteus, ferezeus, refains, amorreus, girgaseus e jebuseus (Gn 15.19-21). Além desses 10, aproximadamente 30 outros povos, espalhados do Egito até a Caldeia, são mencionados por nome só nos primeiros 36 capítulos de Gênesis. Mais subdivisões étnicas da huma­nidade são reconhecidas especificamente nesses 36 capítulos do que em qualquer outra seção de extensão comparável em qualquer outro ponto da Bíblia!
Ao mover-se vagarosamente entre tantos grupos étnicos, seria bas­tante provável que Abrão viesse a desenvolver o tipo de perspectiva de todas as famílias da terra (povos), certamente exigido de alguém desti­nado a ser uma "bênção para todas as famílias da terra".
Ao que parece, tudo prosseguia da maneira como Abrão esperava. Mas Javé tinha uma surpresa guardada para ele...
Quando o Senhor disse: "Em ti serão benditas todas as famílias da terra", Abrão certamente pensou que ele e a nação que descenderia dele se tornariam a única fonte de iluminação espiritual para toda a humanidade. Mas não era bem isso que Javé tinha em mente!
De fato, quando Abrão finalmente aproximou-se de Canaã (como era chamada aquela terra estrangeira), ele logo ficou sabendo que duas de suas cidades — Sodoma e Gomorra — já se achavam mer­gulhadas em profunda decadência. Outras, especialmente as cidades dos amorreus, começavam a seguir o exemplo de Sodoma e Gomorra (v. Gn 15.16). Javé, o Todo-poderoso, não parecia ter outro defensor além de Abrão em toda aquela região do mundo, o que deve ter feito Abrão sentir-se realmente muito necessário!
Quando, porém, Abrão e sua caravana se entranharam em Canaã, uma agradável surpresa os esperava. Eles passaram perto de uma cidade chamada Salém, que significa "paz" na língua dos cananeus. O nome cananeu dessa cidade, incidentalmente, iria mais tarde fazer surgir a significativa saudação hebraica Shalom e seu equivalente árabe, Salaam. Salém contribuiria mais tarde com suas cinco letras para formar a última parte do nome Jerusalém — "o fundamento da paz". Porém, ainda mais interessante do que a cidade de Salém propriamente dita era o rei que reinava sobre ela — Melquisedeque!
O seu nome é uma combinação de duas outras palavras dos cananeus: melchi — "rei", e zadok — "justiça".
Um "rei de justiça" entre os cananeus, notórios por sua idolatria, sacrifício de crianças, homossexualismo legalizado e prostituição no templo? Com certeza Melquisedeque recebeu um nome completamente impróprio!
Absolutamente não! Alguns anos mais tarde, ao voltar de uma operação surpreendente de resgate contra Quedorlaomer (v. Gn 14.1- 16), Abrão chegou ao vale de Savé. Naqueles dias, os habitantes da região tinham o costume de chamar o vale de Savé de "vale do rei" (v. Gn 14.17). Que rei?
Não é difícil adivinhar! Um historiador judeu de nome Josefo conta-nos que o Vale de Savé não era outro senão o vale de Hinom que ficava logo abaixo da muralha situada ao sul da cidade que é agora a velha Jerusalém. Os arqueólogos modernos que estão escavando as ruí­nas da Jerusalém dos tempos de Davi esperam descobrir, em breve, os escombros de uma antiga cidade dos cananeus nessa mesma encosta entre o Vale de Savé e a muralha ao sul da antiga Jerusalém!
Não seria de modo algum surpreendente se essas ruínas queima­das há tanto tempo pertencessem à cidade de Melquisedeque a Salém original. E o Vale de Savé o "vale do rei" recebeu provavel­mente esse nome para homenagear o próprio rei Melquisedeque!
Mal Abrão entrara nesse "vale do rei" e já o rei Melquisedeque "trouxe pão e vinho" para ele. O narrador não diz que Melquisedeque "viajou para encontrar-se com Abrão, levando pão e vinho", mas simplesmente que ele "trouxe pão e vinho" talvez outra evidência quanto à proxi­midade entre o Vale de Savé e Salém.
Chega agora o inesperado. Este "rei de justiça" cananeu, segundo o autor de Gênesis, atuava também como "sacerdote do (El Elyon)" "Deus Altíssimo" (Gn 14.18). Quem era El Elyon?
Tanto El como Elyon eram nomes cananeus para o próprio Javé. El ocorre frequentemente nos textos ugaríticos da antiguidade.3 O termo cananeu El insinuou-se até mesmo na Língua hebraica dos descenden­tes de Abrão em palavras tais como Betei"a casa de Deus"; ElShaddai "Deus Todo-poderoso ou Altíssimo"; e Elúhim "Deus" (forma plu­ral de El que não obstante retém um significado singular misterioso).
Elyon também aparece como um nome para Deus nos textos anti­gos escritos em fenício -— uma ramificação posterior da língua cananeia antiga de Melquisedeque.4 A forma composta El Elyon aparece até numa inscrição aramaica da Antiguidade encontrada recentemente na Síria.5 Quando ligados, os dois termos Ele Elyon significam "Deus Altíssimo".
Pergunta: Abrão, o caldeu, que aparentemente chamava o Todo- poderoso de Yahweh (Javé), ressentiu-se do uso feito por Melquisedeque desse termo cananeu El Elyon como um nome válido para Deus? Não temos de aguardar uma resposta! Melquisedeque agiu de forma a testar imediatamente a atitude de Abrão: "Abençoou ele (Melquisedeque) a Abrão, e disse: Bendito seja Abrão pelo Deus Altíssimo {El Elyon); que possui os céus e a terra; e bendito seja o Deus Altíssimo {El Elyon), que entregou os teus adversários nas tuas mãos" (Gn 14.19-20).
Prepare-se para a resposta de Abrão. Talvez estejamos prestes a ouvir o primeiro argumento teológico na narrativa bíblica. O que ele dirá? Vai responder: "Um momento, alteza! O nome correto para o Altíssimo é Yahweh e não El Elyon! Além disso, não posso aceitar uma bênção oferecida sob esse nome cananeu El Elyon, visto que todo conceito cananeu deve estar, sem dúvida, tingido de noções pagãs. De todo modo, Javé me disse que eu é que deverei ser uma bênção para todas as famílias da terra, inclusive cananeus como Vossa Ma­jestade. Não acha então que está sendo um tanto presunçoso ao aben­çoar-me?"
Nada disso! A resposta de Abrão foi simplesmente dar a Mel­quisedeque "o dízimo" (a décima parte) de tudo que havia tomado de Quedorlaomer na operação de resgate (Gn 14.20). Este ato de Abrão ao "dar o dízimo" a Melquisedeque deu lugar mais tarde a um extenso comentário do autor da Epístola aos Hebreus, no Novo Testamento. Por exemplo: "Considerai, pois, como era grande esse (Melquisedeque) a quem Abrão, o patriarca, pagou o dízimo, tirado dos melhores des­pojos!" O escritor continuou comentando que o sacerdócio do cananeu Melquisedeque deveria ser, então, considerado superior ao sacerdócio levítico do povo judeu, com base no fato de "Levi... pagou-os (os dízimos a Melquisedeque) na pessoa de Abraão. Porque aquele (Levi) ainda não tinha sido gerado por seu pai, quando Melquisedeque saiu ao encon­tro deste (Abraão)" (Hb 7.4-10).
Com respeito ao ato de Melquisedeque abençoar Abraão e a acei­tação implícita dessa bênção por parte deste, o mesmo autor comenta que Melquisedeque "abençoou o que tinha as promessas. Evidente­mente, não há qualquer dúvida, que o inferior é abençoado pelo supe­rior" (Hb 7.6-7, grifo acrescentado).
Mas isso não é tudo que indica a incrível grandeza desse persona­gem cananeu chamado Melquisedeque. O autor de Hebreus cita, a seguir, uma profecia do rei judeu Davi o rei que primeiro conquis­tou a antiga Salém das mãos dos jebuseus (1.000 a.C.) e fez dela Jeru­salém, capital da nação judaica. A profecia declara explicitamente que o Messias judeu, quando vier, não servirá como membro do sacerdócio levítico inerentemente temporário, com sua linhagem restrita. Em vez disso, vai ser um sacerdote da "ordem de Melquisedeque", e cuja ordem não ficará aparentemente restrita a qualquer linhagem particular. E não apenas isso, mas a filiação do Messias à "ordem de Melquisedeque" é confirmada por nada menos que um juramento divino; e Ele perten­cerá eternamente à mesma! "O Senhor jurou e não se arrependerá: tu és sacerdote para sempre, segundo a ordem de Melquisedeque" (SI 110.4, grifo acrescentado).
Javé talvez tivesse avisado Abrão antecipadamente de que encon­traria alguém como Melquisedeque representando o Deus verdadeiro entre os cananeus. Tudo o que posso dizer é: Se Javé não avisou Abrão com antecedência sobre Melquisedeque (e o registro não dá qualquer indicação nesse sentido), então a descoberta de um homem como ele entre os "incultos cananeus" deve ter realmente abalado o pai Abrão!
Como podemos entender a afirmação bíblica de que Melquisedeque era espiritualmente superior a Abraão? O que o tornava superior?
Segundo este autor, a resposta parece estar no que Melquisedeque representava em contraste com o que era representado por Abraão na economia de Deus. O tema deste livro é que Melquisedeque apresen- tou-se no Vale de Savé como um símbolo ou tipo da revelação geral de Deus à humanidade; Abraão, por sua vez, representava a revelação especial de Deus à humanidade, baseada na aliança e registrada no cânon. A revelação geral de Deus é superior a sua revelação especial de duas maneiras: ela é mais antiga e tem influenciado cem por cento da humanidade (SI 19) em vez de apenas uma pequena porcentagem! Assim, era apropriado que Abraão, como representante de um tipo de revelação mais recente e menos universal, pagasse o seu dízimo de reconhecimento ao representante da revelação geral.
A presença de Melquisedeque, anterior à de Abrão, em Canaã, não diminuiu de forma alguma o destino especial dado por Deus a este último! Pelo contrário, não existe a menor evidência de que os dois homens se olhassem com a mais leve insinuação de inveja ou competi­ção. Melquisedeque repartiu seu "pão e vinho" com Abraão e o aben­çoou, e Abraão "pagou o dízimo" a Melquisedeque. Eles eram irmãos em El Elyon/Javé e aliados em sua causa! Tendo em vista que a revela­ção geral e a especial têm ambas origem em El Elyon/Javé, era de se esperar que Melquisedeque repartisse seu pão e vinho com Abrão e este "pagasse o dízimo" a Melquisedeque.
O surpreendente é que eles continuaram a fazer isso através da história subsequente da humanidade. Pois à medida que a revelação especial de Javé — vamos chamá-la de fator Abraão — continuou a estender-se ao mundo, através das eras do Antigo e Novo Testamentos, ela descobriu sempre que a revelação geral de Javé — que chamaremos àe. fator Melquisedeque— já se achava em cena, trazendo o pão, o vinho e a bênção de boas-vindas!
O presente livro é minha tentativa de traçar através da história alguns exemplos desta magnífica interação entre o fator Melqui­sedeque — a revelação geral de Deus — e o fator Abraão — a revela­ção especial de Deus.
Existe, porém, um terceiro fator. E sua relação não é nada bela. Um outro rei cananeu, de caráter bem diverso de Melquisedeque, encontrou-se com Abraão naquele mesmo dia no Vale de Savé. Bera, rei de Sodoma.
Bera mostrou-se amável também para com Abraão, ofere­cendo-lhe os despojos tirados de Quedorlaomer, os quais tinham sido originalmente produtos de um saque em Sodoma.
Observe a reação de Abraão: "Mas Abraão lhe respondeu: Levanto minha mão ao Senhor, o Deus Altíssimo (Javé — El Elyon no original.
Assim como os apóstolos Paulo e João aceitaram mais tarde o " Theos" e "Logos" como nomes gregos válidos para o Deus verdadeiro, Abrão em seus dias aceitou El Elyon, o nome cananeu dado a Deus por Melqui- sedeque), o que possui os céus e a terra, e juro que nada tomarei de tudo o que te pertence, nem um fio, nem uma correia de sandália, para que não digas: "Eu enriqueci a Abrão" (Gn 14.22-23).
Os representantes do fator Abraão, no decorrer da história, tiveram de seguir o exemplo dele ao exercer esse mesmo discernimento — a percepção necessária para distinguir o "fator Melquisedeque" realmente amigável entre os cananeus, desse outro componente oculto da cultura cananeia — que chamaremos de "fator Sodoma". Eles tiveram de apren­der a aceitar um e rejeitar o outro, como fez Abrão no vale de Savé.
Passemos agora ao exemplo seguinte destes três fatores mesclando-se e/ou reagindo, na história:
b)    Os incas
Pergunta: Se Deus deu a dois povos pagãos — cananeus e gregos — testemunho antecipado de sua existência, não poderia ter Ele feito o mesmo ou pelo menos uma obra semelhante junto a outros povos pagãos? Todos eles talvez?
Em outras palavras, o Deus que preparou o evangelho para todos os povos, preparou também todos os povos para o evangelho? Em caso positivo, então deve ser falsa a corrente suposição, mantida por milhões de fiéis e incrédulos, no sentido de os povos pagãos não poderem com­preender e geralmente não desejarem receber o evangelho cristão, sen­do, portanto, injusto tentar fazê-los aceitá-lo (e um esforço praticamente excessivo e inútil).
No restante deste livro (e nos volumes subsequentes), vou provar a falsidade dessa suposição. Deus preparou de fato o mundo gentio para receber o evangelho. Um número bastante significativo de não cristãos mostrou, portanto, muito mais disposição em aceitar o evangelho do que os próprios cristãos em compartilhá-lo com eles. Continue len­do e verá.
O apóstolo Paulo chamou Epimênides de "profeta". Ficamos ima­ginando que título teria atribuído a Pachacuti, cuja percepção espiri­tual, como pagão, superava até mesmo a de Epimênides.
Pachacuti (algumas vezes grafado Pachacutec) foi rei da incrível civilização inca da América do Sul, de 1438 a 1471 d.C.6 Segundo Philip Ainsworth Means, perito em antiguidades andinas, Pachacuti levou o império inca ao seu apogeu. Vejamos, por exemplo, algumas de suas realizações.
Quando Pachacuti reconstruiu Cuzco, a capital inca, ele fez tudo em escala grandiosa, enchendo-a de palácios, fortes e um novo templo dedicado ao sol. A seguir, mandou levantar um "fabuloso recinto dou­rado" em Coricancha — cujo edifício "rivalizava em esplendor com o próprio templo de Salomão em Jerusalém!"8 Construiu, outrossim, uma longa fileira de fortalezas, protegendo as divisas orientais de seu império contra a invasão de tribos da bacia amazônica. Uma dessas fortalezas, a majestosa Machu Picchu, tornou-se durante algum tempo o último refúgio da nobreza inca em sua fuga dos brutais conquistado­res espanhóis. De fato, estes jamais encontraram Machu Picchu. Pacha­cuti a construiu sobre um alto cimo de montanha, o que a tornou invisível de outras elevações mais baixas.
Durante vários séculos, a existência de Machu Picchu permaneceu oculta do mundo exterior. Uma floresta cerrada encobria o local. Em 1904, porém, um engenheiro de nome Franklin vislumbrou as ruínas de uma montanha distante. Franklin contou a Thomas Paine sobre a sua descoberta. Paine, um missionário inglês, servia sob uma sociedade cha­mada "Regions Beyond Missionary Union" (União Missionária para as Regiões Remotas). Em 1906, Paine subiu até as ruínas na companhia de outro missionário, Stuart McNairn. Eles ficaram assombrados. Mas foi em 1910 que Hiram Bingham, de Yale, ao ouvir sobre a descoberta, visitou Paine em Urco. Paine amavelmente forneceu a Bingham mulas e guias para chegar ao local. Bingham tornou-se mundialmente famoso desde então como o "descobridor de Machu Picchu, a Cidade Perdida dos Incas!" Bingham não deu qualquer crédito a Thomas Paine, men­cionando apenas os "boatos locais" como o fator que o guiara9.
O médico Daniel Hayden, que teve contato pessoal com Thomas Paine durante vários anos no Peru, afirma que este — um homem simples, amado pelos descendentes dos incas em toda a região do Peru — preferiu não corrigir o "esquecimento" de Bingham. Thomas Paine continua como um dos missionários cristãos cujas contribuições à ciência não receberam reconhecimento de cientistas.
Milhares de turistas visitaram Machu Picchu desde que a nova estrada Hiram Bingham, no Peru, a tornou acessível em 1948. Quem quer que sinta reverência pelo esplendor de Machu Picchu deveria saber que Pachacuti, o rei. Que aparentemente a fundou, recebeu crédi­to por uma realização muito mais significativa do que a simples cons­trução de fortalezas, cidades, templos ou monumentos. Da mesma forma que Epimênides, Pachacuti era um daqueles exploradores espi­rituais que, nas palavras de Paulo (v. At 17.27), buscou, tateou e encon­trou um Deus muito superior a qualquer "deus" popular de sua própria cultura. Ao contrário de Epimênides, Pachacuti não deixou o Deus que descobrira na categoria de "desconhecido". Ele o identificou pelo nome, e mais ainda:
Quase todos que têm algum conhecimento sobre os incas sabem que adoravam Inti — o sol.
Todavia, em 1575, em Cuzco, um sacerdote espanhol chamado Cristobel De Molina colecionou vários hinos incas — e certas tradi­ções ligadas a eles — provando que a divindade de Inti nem sempre se mostrou indiscutível, até mesmo aos olhos dos próprios incas. De Molina escreveu os hinos e suas tradições na língua inca, ou quechua, com a ortografia adaptada do espanhol. Os incas não tinham um sis­tema de escrita. Essa coleção inteira de tradições e hinos reporta-se ao reinado de Pachacuti.

Os eruditos modernos, ao redescobrirem a coletânea de De Molina, maravilharam-se com o seu conteúdo revolucionário. Alguns, a princípio, não quiseram crer que fosse realmente inca! Ti­nham certeza de que o próprio De Molina deveria ter introduzido seu pensamento europeu na composição inca original. Alfred Metraux, porém, em sua obra History ofthe Incas ("História dos Incas"), concor­da com o Professor John H. Rowe que, segundo ele, "foi bem-sucedi- do em restaurar os hinos à sua versão original, (e está) convencido de que nada devem aos ensinos missionários. As formas e expressões usadas são basicamente diversas das encontradas na liturgia cristã na língua inca".10
Novas confirmações da autenticidade da compilação de De Molina vieram à tona. Um outro hino do mesmo gênero, diz Metraux, foi "milagrosamente preservado por Yamqui Salcamaygua Pachacuti, um cronista índio do século XVII... Basta comparar este outro hino com os colecionados por De Molina em 1575, para compreender que todos pertencem às mesmas tradições literárias e religiosas".11
Metraux declara: "Pela sua profundidade de pensamento e lirismo sublime (o hino inca preservado por Yamqui) é comparável aos mais belos Salmos".12
O que havia de tão revolucionário a respeito dos hinos? As tradi­ções descobertas com eles declaram incisivamente que Pachacuti — o rei tão dedicado à adoração do sol, que reconstruiu o templo de Inti em Cuzco — começou, mais tarde, a questionar as credenciais de seu deus! Philip Ainsworth Means, comentando sobre o descontentamento de Pachacuti com Inti, escreveu: "Ele ressaltou que esse corpo lumi­noso segue sempre um caminho determinado, realiza tarefas definidas e mantém horas certas como as de um trabalhador". Em outras pala­vras, se Inti é Deus, por que ele nunca faz algo original? O rei refletiu novamente. Ele notou que "a radiação solar pode ser diminuída por qualquer nuvem que passe". Ou seja, se Inti fosse realmente Deus, nenhuma simples coisa criada teria poder para reduzir a sua luz !"13
Pachacuti tropeçou inesperadamente na verdade de que estivera adorando um simples objeto como Criador! Corajosamente, ele avan­çou para a pergunta inevitável: Se Inti não é o Deus verdadeiro, quem é Ele então?
Onde um inca pagão, afastado dos conhecimentos judaico-cris- tãos, poderia encontrar a resposta a essa pergunta?
Ela é bastante simples — mediante as antigas tradições latentes em sua própria cultura! A possibilidade desse evento foi prevista pelo apóstolo Paulo, quando escreveu que Theos, no passado, "permitiu que todos os povos andassem nos seus próprios caminhos; contudo, não se deixou ficar sem testemunho" (At 14.16-17, grifo acrescentado).
Pachacuti tomou o testemunho que extraíra diretamente da cria­ção e o colocou ao lado da quase extinta memória de sua cultura: Viracocha — o Senhor, o Criador onipotente de todas as coisas.
Tudo o que restava da anterior lealdade inca a Viracocha era um santuário chamado Quishuarcancha, situado na parte superior do vale Vilcanota.14 Pachacuti lembrou também que seu pai, Hatun Tupac, afir­mou certa vez ter recebido conselho num sonho por parte de Viracocha. Este, nesse sonho, lembrou Hatun Tupac que Ele era verdadeiramente o Criador de todas as coisas. Hatun Tupac imediatamente passou a fazer-se chamar (ousamos dizer que vaidosamente?) Viracocha!
O conceito de Viracocha era, portanto, antiquíssimo com toda pro­babilidade. A adoração de Inti e outros deuses, sob esta perspectiva, não passava de desvios recentes de um sistema de crença original mais puro. Metraux insinua isso quando observa que Viracocha teve representantes proeminentes nas culturas indígenas "desde o Alasca à Terra do Fogo",15 enquanto a adoração do sol aparece em relativamente poucas culturas.
Pachacuti decidiu aparentemente que seu pai redescobrira algo básico e autêntico, mas não prosseguira com a descoberta até onde deveria ir! Resolveu que ele, como filho, aprofundar-se-ia na realidade tocada pelo pai (ou seria essa realidade que de fato o estava levando a aprofundar-se?).

Um Deus que criara todas as coisas, concluiu Pachacuti, merece ser adorado! Ao mesmo tempo, seria incoerente adorar parte de sua criação como se fosse o próprio Deus! Pachacuti chegou a uma firme decisão — essa tolice de adorar Inti como Deus já fora longe demais, pelo menos quanto a ele e seus súditos da classe alta.
Pachacuti entrou em ação. Ele convocou uma reunião dos sacer­dotes do sol — um equivalente pagão do Concílio de Niceia — na bela Coricancha. De fato, um erudito chama esse congresso de Concí­lio de Coricancha, colocando-o então entre os grandes concílios teoló­gicos da história.16 Nesse concílios, Pachacuti apresentou suas dúvidas sobre Inti em "três sentenças":
1.    Inti não pode ser universal se, ao dar luz a alguns, ele a nega a outros.
2.    Ele não pode ser perfeito se jamais consegue ficar à vontade, descansando.
3.    Ele não pode ser também todo-poderoso se a menor nuvem consegue encobri-lo.17
A seguir, Pachacuti reavivou a memória de seus súditos da classe superior quanto ao onipotente Viracocha, citando seus estupendos atributos. O dr. B.C. Brundage, da Universidade de Oklahoma, nos EUA, resume a descrição de Viracocha, feita por Pachacuti, como se­gue: "Ele é antigo, remoto, supremo e não criado. Também não necessi­ta da satisfação vulgar de uma consorte. Ele se manifesta como uma trindade quando assim o deseja,... caso contrário, apenas guerreiros e arcanjos celestiais rodeiam a sua solidão. Ele criou todos os povos pela sua "palavra" (sombras de Heráclito, Platão, Filo e do apóstolo João!), assim como todos os huacas (espíritos). Ele é o Destino do homem, ordenando seus dias e sustentando-o. E, na verdade, o princípio da vida, pois aquece os seres humanos através de seu filho criado, Punchao (o disco do sol, que de alguma forma se distinguia de Inti). E ele quem traz a paz e a ordem. E abençoado em seu próprio ser e tem piedade da miséria humana. Só ele julga e absolve os homens, capacitando-os a combater suas tendências perversas".18
Pachacuti ordenou, a seguir, que Inti fosse daí por diante respeitado como apenas um "parente" — uma entidade amiga criada. As orações deveriam ser dirigidas a Viracocha com a mais profunda reverência e humildade.19
Como resultado do concílio, Pachacuti compôs hinos reverentes a Viracocha, os quais, por fim, passaram a fazer parte da coleção de De Molina.
Alguns sacerdotes do sol reagiram com "amarga hostilidade".20 As declarações de Pachacuti golpearam seus interesses como uma granada. Outros consideraram a lógica de Pachacuti irresistível e concordaram em servir Viracocha! Dentre estes, porém, vários se preocupavam com um problema prático: Como reagiriam as massas quando os sacer­dotes do sol anunciasserh: "Tudo que ensinamos durante os séculos que se passavam estava errado! Inti não é absolutamente Deus! Esses templos imensos que construíram para eles com tanto esforço — e por sua ordem — são inúteis. Todos os rituais e orações ligados a Inti de nada valem. Precisamos começar, agora, da estaca zero com o Deus verdadeiro — Viracocha!"
Tal notícia não produziria cinismo, incredulidade? Ou até mesmo daria lugar a um levante social?
Pachacuti cedeu à diplomacia política. "Ele ordenou [...] que a adoração de Viracocha ficasse confinada à nobreza, (pois era) [...] sutil e sublime demais para o povo comum (sic!)."21
Para sermos justos, precisamos admitir que Pachacuti pode ter esperado que a adoração de Viracocha — tendo o devido tempo para infiltrar-se como fermento -— viesse por fim a ser adotada pelas classes mais baixas. Tempo, entretanto, era algo que sua reforma, ainda embrio­nária, não tinha em grande quantidade. Pachacuti nem sequer sonhava que a sua decisão de favorecimento de classes seria fatal. Historicamente, as classes são um fenômeno social de curta duração notória; o povo comum é que permanece. Isso aconteceu também com a nobreza inca. Depois de um século da morte de Pachacuti, conquistadores espa­nhóis cruéis eliminaram a família real e a classe alta. Como as classes baixas haviam sido relegadas à escuridão espiritual, com suas ideias erradas sobre Inti e outros deuses falsos, não puderam dar continuida­de à reforma de Pachacuti. Ela morreu ainda incipiente; foi, na verda­de, uma minirreforma.
Por que o império inca foi derrubado apenas um século depois de seu apogeu sob o rei Pachacuti? Viracocha se zangara pelo fato de a nobreza ter ocultado da plebe o conhecimento de sua pessoa? O que teria acontecido se missionários cristãos procedentes da Europa tivessem chegado ao Peru duas ou três gerações antes dos conquista­dores? Esse período seria certamente o momento exato para a chega­da do evangelho. O interesse pelo conceito de um Deus supremo alcançara seu ponto máximo em meio à família real e à classe alta. Os mensageiros do evangelho teriam tido quase um século para fazer uma gloriosa colheita por todo o império, antes que os conquistado­res atacassem! Além disso, os incas acreditavam numa vaga profecia de que futuramente Viracocha lhes traria bênçãos do Ocidente, isto é, pelo mar. Mas os compassivos mensageiros cristãos, quem quer que tenham sido, deixaram de comparecer. Em seu lugar, veio um conquistador político impiedoso e interesseiro Pizarro — com seu exército voraz. Fingindo agir em nome de Deus, Pizarro aproxi- mou-se do Peru pelo mar e tirou partido das esperanças incas monoteístas, destruindo tanto o povo como o seu império.
Ainda antes de Pizarro, Hernando Cortez aproveitou-se de expectativas semelhantes entre os astecas e acabou com eles. Como a história poderia ter-se desenrolado de modo diferente, se apenas os verdadeiros emissários do evangelho tivessem chegado primeiro! Não só para transmitir sua mensagem, mas também para servir como mediadores aos astecas, incas e outros povos ameaçados das Améri­cas, ensinando-os antecipadamente a tratar com as forças políticas e comerciais que logo surgiriam. Os astecas e incas não teriam então se curvado diante de Cortez e Pizarro, pois não os teriam visto como aqueles que deram cumprimento às suas lendas, já que estas já teriam sido cumpridas! Os impérios maia, asteca e inca talvez tivessem sobre­vivido até hoje.
Quanta ironia também no fato de os católicos espanhóis, em seu zelo de abolir a "idolatria" inca, terem destruído uma crença monoteísta que serviu como um Antigo Testamento provisório, no sentido de abrir a mente de milhares às boas novas da encarnação de Viracocha na pessoa de seu Filho. Note que eu disse Antigo Testamento "provisório" e não "substituto".
Todavia, como diz o poeta Omar Khayyam, "Move-se a mão que escreve, e tendo escrito, segue adiante". É tarde demais para trazer de volta Pachacuti e seu império, a fim de tratá-los com mais justiça do que o fizeram os espanhóis. O que importa agora? Que nós, filhos da presente geração, tratemos com justiça os filhos de Pachacuti que sobre­viveram ao holocausto espanhol — os quechuas.
Vamos colocar a reforma de Pachacuti em perspectiva histórica. Vamos compará-lo por um momento com Aquenaton, Faraó egípcio que tentou também uma reforma religiosa. Os egiptólogos proclamam Aquenaton (1379-1361 a.C.) como um gênio raro por ter tentado — ainda que sem sucesso — substituir a idolatria confusa e vulgar do Egito antigo pela adoração do sol.22 Pachacuti, no entanto, encontra-se anos luz à frente de Aquenaton por compreender que o sol, que podia apenas cegar os olhos humanos, não tinha condições de competir com um Deus grande demais para ser visto pelos olhos do homem! Como é curioso o fato de que os eruditos modernos tenham feito tanta publicidade em torno da reforma de Aquenaton, enquanto a de Pachacuti é mencionada somente em obscuros livros-texto para iniciados.
Vamos retificar os registros.
Se a adoração do sol por Aquenaton estava um degrau acima da idolatria, a escolha de Pachacuti de adorar a Deus em lugar do sol foi como um salto para a estratosfera! Descobrir um homem como Pachacuti no Peru do século XV é tão surpreendente quanto encontrar um Abraão em Ur ou um Melquisedeque entre os cananeus. Se fosse possível vol­tar no tempo, Pachacuti seria alguém que eu certamente gostaria de conhecer. Gosto de chamá-lo de "Melquisedeque inca".
Os atenienses e cretenses da época de Epimênides e os incas dos dias de Pachacuti morreram sem ouvir o evangelho de Jesus Cristo. O que dizer disso? Não houve povos pagãos que tenham vivido para receber as bênçãos do evangelho, os quais já tivessem um conceito de Deus?
A história registra, de fato, muitos povos desse tipo. Este que é apresentado a seguir é um dentre eles.
(Trecho do livro O Fator Melquisedeque, Don Richardson)






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